A Trupe Nóia Cia. Cênica, desde 2008, tem como principal objetivo a formação eficaz de plateia. E nesse processo, entendemos a importância de integrar o público PCD nessa formação, tendo em vista principalmente o custo do mercado de acessibilidade. É importante criar plateia para que justifique esse valor em editais públicos, como também na bilheteria, para que esse custo possa ser suprido. Então, para pensarmos em como isso poderia ser possível, convidamos: artistas, técnicos e público em sua pluralidade, como: surdos, ouvintes, TEA, deficiência intelectual, TDAH e ansiedade generalizada. Para compreendermos melhor tudo isso, é claro que o público PCD é bem mais plural que isso, mas buscamos apresentar algumas necessidades para tornar os trabalhos artísticos culturais mais acessíveis. Assim, montamos essa cartilha para apresentar algumas soluções para tornar a formação de plateia PCD mais eficaz.
GLOSSÁRIO RÁPIDO: PALAVRAS-CHAVE DA ACESSIBILIDADE:
- #PraCegoVer: Hashtag usada para avisar que a próxima descrição é da imagem, feita para leitores de tela.
- Audiodescrição: Narração que descreve cenários, figurinos e ações para pessoas cegas ou com baixa visão.
- Intérprete de Libras: Profissional que traduz o conteúdo falado para a Língua Brasileira de Sinais, essencial para o público surdo.
- Legenda (LSE): Legenda que inclui diálogos e descrição de sons importantes (ex.: [música ao fundo], [porta bate]).
- Neurodivergente: Termo que abrange pessoas com TEA, TDAH, etc., cujo cérebro processa informações de forma diferente. Pode exigir ambientes com menos estímulos.
- PCD: Pessoa com Deficiência. Termo correto e atual.
- Sala de Autorregulação: Espaço tranquilo, com poucos estímulos, para pausas durante o evento.
- TEA: Transtorno do Espectro Autista. Pode requerer previsibilidade e adaptações sensoriais (som, luz).
- TDAH: Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade. Pode beneficiar-se de intervalos ou locais onde se movimentar.
Profissionais de acessibilidade:
Para cada deficiência existe um profissional de acessibilidade, sendo os mais comuns:
- Para surdos: Intérprete de Libras;
- Para cegos: Audiodescrição, textos e/ou folders/flyers descritivos em braile;
- Para neurodivergentes: Recepção sensibilizada e sala de autorregulação;
- Para deficiências locomotoras: Estrutura acessível.
: : Primeira dica: Ter um profissional de acessibilidade para auxiliar na produção da acessibilidade do projeto. PREFRÊNCIALMENTE QUE SEJA UM PROFISSIONAL PCD! Ele pode entender o seu projeto e sugerir as melhores adequações para ele e atestar os profissionais para garantir que eles tenham fluência e/ou capacidade para exercer aquela função.
: : Segunda dica: Quase obrigatória! Atestar que o local tenha rampas, portas largas, banheiros acessíveis e espaço para cadeirantes na platéia. Pode ser interessante também conferir a entrada, as calçadas e o entorno.
: : Terceira dica: Ter uma sala preparada para que a PCD neurodivergente possa se refugiar durante uma crise, para se regular e voltar ao espetáculo, de preferência com um profissional sensibilizado para auxiliá-la nessa tarefa.
Integração de artistas PCDs nas obras:
Esse é um tema que vamos abordar de duas formas:
: : Primeiro: com profissionais de tradução, geralmente em Libras: como o PCD quer ver o espetáculo enquanto lê a tradução, o tradutor deve estar em um local mais próximo do espetáculo, bem iluminado, e de preferência em um local onde o PCD possa olhar para o profissional em primeiro plano e atrás o espetáculo, facilitando o foco e atenção. Geralmente temos o básico “de ladinho”, porém, em teatros com o palco mais alto, é possível colocar o intérprete no meio, ou em formatos mais ousados, atrás da cena, em um pequeno elevado. Porém, temos também a possibilidade do profissional ficar como uma sombra, seguindo o ator, participando da cena. E, é claro, os artistas em cena que atuam traduzindo o espetáculo enquanto ele acontece, que é um caminho já muito explorado em espetáculos acessíveis.
: : Segundo: artistas PCDs em cena! Com a acessibilidade cada vez ganhando mais espaço, artistas PCDs vão cada vez mais ocupando esse lugar. E nesse momento, além de oportunizar esse lugar, é compreender as limitações, não como uma incapacidade de exercer, mas sim como desafios que abrilhantam mais o espetáculo, transformando em lúdico ou poético! E, claro, alguns necessitam de uma atenção, como: um surdo ter um intérprete, e que também toda a equipe e artistas busquem compreender o básico para uma comunicação mínima (que vai crescendo com a troca); e também artistas com dificuldade intelectual ter um ponto, para que falas maiores possam ser auxiliadas, ou outras formas cênicas para isso.
O que pode ser visto como dificuldades de acessibilidade deve ser olhado como oportunidades cênicas que engrandecem a proposta de um espetáculo.
Quais são os principais caminhos para se preocupar em um espetáculo acessível:
- Se o profissional realmente é capacitado para o trabalho! Como fazer isso? Sendo atestado por um profissional de preferência PCD ou indicado de preferência por um PCD;
- Se o local é acessível com rampas e portas mais largas; também, alguns bancos mais largos e acessíveis;
- O posicionamento do intérprete;
- Ter uma recepção sensibilizada para auxiliar no que for necessário para a melhor acomodação.
IMPORTANTE: NUNCA PRESUMA O QUE UM PCD NECESSITA! Sempre pergunte se pode ajudar em algo; - Uma sala de autorregulação;
- Quando falamos em um público com TEA e ansiedade generalizada, precisamos entender que a dinâmica do espetáculo deve ser repensada: Como luzes fortes, estrobo, sons muito altos e etc;
- Material descritivo em braile, flyer, folders e etc. Eles podem falar sobre: o espetáculo, figurinos, cenário e personagens;
- Preparar toda a equipe de recepção para receber o PCD, coisas básicas como: libras, sensibilização e paciência, entendimento sobre a importância da inclusão e outros.
Lembrando, não se preocupe se seu projeto não contiver todas as acessibilidades. É importante que você entenda o público que será atendido. Às vezes, para cada apresentação, seu projeto focar em um tipo de acessibilidade pode ser um caminho viável para você abraçar a todos. E, é claro, observe o tamanho do seu projeto, pois nem sempre conseguimos abraçar o mundo!
Alcance e promoção de espetáculos acessíveis:
Esse é o maior dos desafios, e lançamos aqui uma proposta: o melhor jeito de alcançar o público PCD é através das redes sociais, o que facilita muito a comunicação, principalmente para cegos e surdos! Para surdos é importante sempre haver legenda, e para cegos, atualmente temos a #PraCegoVer, seguida da descrição da imagem que está sendo veiculada, onde a tecnologia atual permite essa transcrição.
Mas como alcançar um público tão plural? Os gostos dos PCDs são como os de qualquer pessoa, seus desejos, anseios e gostos. Então, não existe um local que possa ser direcionado os convites, pois atualmente as redes sociais não consideram “PCD” como um algoritmo selecionável.
Por isso, sugerimos o uso da hashtag #EventoAcessívelMunicípio, por exemplo: #EventoAcessivelRiodejaneiro. Assim, vários eventos acessíveis podem estar disponíveis de forma prática para que a PCD possa escolher o que mais lhe agrada e acompanhar as postagens.
Porém, claro, essa não é a única forma: Enviar o convite para instituições ou OSCs que recebem os PCDs; Contratar profissionais para que possam fazer essa conexão, são formas de acesso direto a esse público fora das redes.
Porém, na minha visão, esse acesso deveria vir com os profissionais da área, pois os mesmos já têm contato com vários grupos de PCDs na sua área de atuação, e como a formação de plateia aquece e justifica o mercado de intérpretes/acessibilidade, acredito que a melhor parceria para a formação de plateia deveria vir deles mesmos. “Ah, mas é mais um serviço que deve ser contratado” – quem perde com o encarecimento da acessibilidade é o próprio profissional. Então, o meu projeto pode pensar em formar plateia, mas se o público PCD não comparece, quem vai perder? Então, nessa cartilha, segue a convocatória para que os intérpretes nos ajudem nessa formação de plateia, pois todos só têm a ganhar com essa acessibilidade!
Então, atraves dessa cartilha, convoco: Divulgue os trabalhos que vocês foram contratados nas suas redes de PCDs, não custa nada, e você estará promovendo o acesso ao PCD, formação de plateia e o seu emprego!
Custos de profissionais;
Sim, o custo é bem grande. Se você for seguir essa cartilha, precisa entender: quem paga a acessibilidade?
“As companhias cênicas e projetos artísticos culturais trabalham na formação de plateia, muitas vezes de forma gratuita. Bom, não esperem isso dos intérpretes de Libras, pois esse trabalho não é deles! Não adianta, eles estudaram para trabalhar!”
Sim, é um pensamento pesado, mas real. Então, quem paga a formação de plateia do PCD atualmente são editais diretos ou indiretos do poder público, aos quais atualmente é destinado 10% do orçamento do projeto, obrigatório para a acessibilidade. E, claro, deve-se aproveitar da melhor maneira essas oportunidades para formarmos plateia PCD. E para isso serve essa cartilha, para que você possa distribuir bem esse valor.
Não existe uma tabela de preços realmente válida sobre o custo dos profissionais de acessibilidade, o que dificulta na hora de orçar o seu projeto. Então, é importante, antes, conversar com o profissional que você deseja contratar, entendendo que ele mantenha o valor acordado na hora da execução do seu projeto, mesmo sendo alterado de um ano para o outro!
Os valores variam de acordo com a experiência do profissional e da estrutura que ele dispõe para o serviço. Então, vale pesquisar ou ter um profissional no seu projeto que já possa fechar esse orçamento.
Palavras finais:
Bom, ainda é tudo muito novo, porém obrigatório na busca da conquista da aprovação do seu projeto. Porém, é muito mais! Vem de uma luta muito antiga da classe, que aos poucos vai conquistando seus direitos de uma real inclusão. Então, é um convite para caminharmos juntos, descobrindo e/ou criando formas eficazes de contribuir para essa democracia. Aqui falamos sobre entretenimento, porém, é um lugar que é mais do que isso! É o direito de ser e a oportunidade de nos comunicarmos de forma eficaz. Então, sempre que tiver a oportunidade de aprender, de se comunicar, de INCLUIR, faça! Isso se trata da evolução das relações humanas!
Biografia:

Todo o conteúdo apresentado veio do 3º Encontro de Nós para nos, realizado no dia 10 de dezembro de 2025 que aconteceu no Ponto de Cultura Espaço Cultural Nóia (@espaconoia), na Pavuna, Rio de janeiro/RJ, como contrapartida do projeto Clarin o griô NO PICADEIRO, Circuito RJ pelo edital Respeitável Público, com patrocínio: Governo Federal, Ministério da Cultura, Governo do Estado do Rio de Janeiro, Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro, através da Lei Paulo Gustavo.
Essa cartilha tem uma interpretação de Christian S. Santos: Fundador e diretor geral da Trupe Nóia Cia Cênica, com 18 anos de atuação e DRT: 46579/RJ – Escreveu, produziu e dirigiu vários espetáculos. (@chris.cenico)
Participaram da conversa:

- Juliana (Profissional surda – IFISI Assessibilidade): Formada em pedagogia fazendo pós-graduação em Libras, trabalha atualmente no museu do planetário da gávea e é atriz; (@juuhsereia)
- Eduardo (Profissional em libras – IFISI Assessibilidade): Tradutor de libras a mais de 20 anos, trabalha no INES, Instituto Nacional de Estudos de Surdos; (@edualdotics)
- Isabel: Mora em Xerém e quer fazer uma colônia de férias na sua própria casa;
- Pablo: Palhaço Qualquer, formado em ciências sociais, e na escola de palhaços Eslipa; (@pabloleal)
- Renan: Gari, Praticante de libras e faz um projeto de inclusão para funcionários PCDs na CONLURB; (@renan.rio.rj)
- André: Ator e palhaço Paçoca, Palhaço ativista na causa PCD; (@andrepacocaoficial)
- Luan: técnico de som aprendiz da Trupe Nóia; (@lima_uam)
- Laís: Cantora, dançarina, atriz, social mídia, Palhaça Girassol e nossa profissional sensibilizada – Trabalha com crianças na Arena Carioca Dicró em parceria com o CAPS, inclusive com crianças PCDs; (@eulaismatos)

